Lolita

20dez07

A piazza, anunciou a minha guia, e a seguir, sem o mínimo aviso, uma oceânica onda azul soergueu-me o coração: numa esteira estendida num charco de sol, semi-nua, ajoelhada e girando sobre os joelhos, estava o meu amor da Riviera, a espreitar-me por cima de uns óculos escuros.
Era a mesma criança – os mesmos ombros frágeis cor de mel, as mesmas costas nuas, sedosas e flexíveis e a mesma cabeleira castanha. Um lenço às bolinhas, atado em redor do peito, ocultava dos meus olhos de macaco a envelhecer, mas não dos da memória da juventude, os seios moços que acariciara certo dia imortal. E, como se eu fora a ama de alguma princesinha de conto de fadas (perdida, raptada, descoberta envolta em farrapos ciganos, através dos quais a sua nudez sorria ao rei e aos seus cães de caça), reconheci o pequeno sinal castanho-escuro do seu flanco. Reverente e deleitado (o rei chorando de alegria, as trompas soando clangorosamente, a ama enlevada), vi de novo o seu encantador abdômen retraído, onde a minha boca, em demanda de regiões mais ao sul, se detivera brevemente, e aquelas ancas infantis, onde beijara a marca granulada deixada pelo elástico dos calções, naquele derradeiro, louco e imortal dia, atrás do
Roches Roses. Os vinte e cinco anos que vivera desde então afunilaram-se até formarem um ponto palpitante e desapareceram.
Tenho muita dificuldade em exprimir com a força adequada aquele clarão, aquele arrepio, o impacte do reconhecimento apaixonado. No decorrer do momento saturado de sol em que o meu olhar deslizou pela criança ajoelhada (os seus olhos piscavam por cima dos severos óculos escuros – o Herr Doktorzinho que me curaria de todas as minhas dores), enquanto passei por ela no meu disfarce de adulto (um grande e bonito pedaço de virilidade cinematográfica), o vácuo da minha alma conseguiu aspirar todos os pormenores da sua luminosa beleza, que comparei com as feições da minha noiva morta. Passado pouco tempo, claro, ela, aquela
nouvelee, aquela Lolita, a minha Lolita, eclipsaria completamente o seu protótipo. Só pretendo frisar que a sua descoberta por mim foi uma conseqüência fatal do principado junto ao mar, do meu pungente passado. Tudo quanto existira entre os dois acontecimentos não passava de uma série de tentativas e erros, e falsos rudimentos de ventura. Tudo quanto elas partilhavam as transformava numa só.
(…)
Só sei que, enquanto Mrs. Haze e eu descíamos os degraus de acesso ao sufocante jardim, os meus joelhos dir-se-iam reflexos de joelhos em água ondulante, e os meus lábios dir-se-iam areia, e…

– Aquela era a minha Lo – disse a mulher -, e aqui estão os meus lírios.
– Sim – respondi -, sim. São lindos, lindos, lindos!

(Lolita Vladmir Nabokov 1955)

[postando porque a minha leitora assídua disse que gostou e pediu a da Lolita]

Anúncios


No Responses Yet to “Lolita”

  1. Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: